Seja Bem-Vindo!

Aqui se fala sobre música, sobre artistas e sobre bandas da cena nacional e internacional, de hoje e de sempre!

Já se falou aqui?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Discos da Minha Vida - Calango - Skank


Esse aqui é outro disco dos primeiros que comprei em CD, se bem me lembro, lá nos idos de 1995 (o disco é de 1994), quando então praticamente metade do disco já era tocada direto nas rádios da cidade (e de todo país).

Amolação, Jackie Tequila, Esmola, A Cerca, É Proibido Fumar, Pacato Cidadão, Te ver... todas tocaram absurdamente nas rádios, nas festas, nos bares, nas boates, e o Skank estourou no Brasil.

O nome do disco, "Calango" faz referência a um tipo de desafio de cancioneiros caipiras sobre um mesmo tema, como acontece em "A cerca", como se fosse um mote das músicas dos violeiros.

O disco, que vendeu mais de um milhão de cópias e que tem o Lelo na capa (que tem o jeitão de fantasia de carnaval mesmo - em comemoração, inclusive, pelo título no futebol em 1994) é, ao mesmo tempo que um marco na história do próprio Skank, porque definitivamente projetou o grupo no cenário nacional (porque vendeu mais de 4 vezes o que o primeiro disco) é também, singular na própria história musical do Skank, porque apesar do primeiro disco possuir algumas músicas que têm a batida bem dancehall jamaicano (característica marcante no Calango), que algumas vezes lembra Jimmy Cliff e até o UB40, parece que foi completamente esquecida no "Samba Poconé" já dois anos depois. E nunca mais. Há inclusive quem radicalizou a dizer que foi o único disco bom do Skank, o que é, na minha opinião, um grande exagero.

Não que o Skank não tenha refeito as suas próprias concepções e tendências musicais - que continuam, diga-se de passagem, ótimas nas letras de Samuel e do sempre presente Chico Amaral - mas de fato nada foi feito que se pareça com as batidas envolventes do Calango. Muito metal, batidas de reggae, ska, sintetizadores, programação eletrônica misturados com uma guitarra de levada caracteristicamente brasileira.

Nas letras, o disco todo é recheado de muito bom humor, misturando situações amorosas com momentos vexatórios (transformados em versos humorísticos), como em "Amolação":

Deus lá de cima sabe muito bem
Qual a minha sina: o que que me convém
Bicho do mato ela veio comigo
Teve ninho, carinho, broa, abrigo
Labutei na roça, labutei no milharal
Labutei passando bem
Labutei passando mei mal
Bruma no cerebro dela de repente
Brus tão brusca, brus bruscamente

Ou principalmente em "A cerca":

Tu cerca a terra, tu cerca até o mundo
Então cerca tua filha, toda noite aqui no fundo
Pois te conto um segredo
Cê não conta pra ninguém
Andam vendo tua mulher
Com o dono do armazém
Maledicência, eu já tó acostumado
Até dizem que o senhor é incapacitado
Eu tomo chuva, tomo ar puro de manhã
Minha saúde é de ferro, pergunte pra sua irmã!

Mas vai também (e o tema é sempre muito bem trabalhado pelo grupo em todos os discos) falar de amor, quando Samuel pede: "me dá um beijo, porque o beijo é uma reza pro marujo que se preza..." ou então quando diz que "te ver e não te querer é como esperar o prato e não salivar; Sentir apertar o sapato e não descalçar; É ver alguém feliz de fato sem alguém pra amar; É como procurar no mato estrela do mar..."

Também vai o grupo no social, ainda que de forma bem humorada, falar da tragi-comédia da miséria brasileira em "Pacato Cidadão", "Estivador" e "Esmola", onde se ouve que

"Eu tô cansado, meu bom, de dar esmola
Essa quota miserável da avareza
Se o pais não for pra cada um
Pode estar certo
Não vai ser nenhum"

e diz até que é necessário:

"Abolir a escravidão do caboclo brasileiro
Numa mão educação, na outra dinheiro." (Pacato Cidadão)

Personagens também são marcantes na discografia do grupo. Nesse disco, tem o misterioso "Sam" e, pricipalmente (a música mais executada do álbum) "Jackie Tequila", uma menina muito louca que vai no Funk, vai no Baião, vai no Reggae e que enlouquece o contador da estória, que resume a vida de Jackie numa estrofe que é cantada por todo mundo, nas rodas de violão e nos shows do skank, onde quer que ele toque, em duas notinhas, num reggae muito legal:

"Jackie foi nascer numa cabana em Noa Noa
Sol do Taiti na pele, nowboah
Seu pai cruzou o mar, duas filhas na canoa
Côco pra beber e leite de leoa
Jackie é uma menina tão bonita que enjoa
Enjôo de vertigem, viagem de avião
Hálito de virgem, dois olhos de amêndoa
Vaca, cadela, macaca e gazela
Linda toda, toda linda ela
Toda beleza se reconhece nela
Jackie Tequila, coca-cola e água
Égua, língua, mingua minha mágoa."

Comprei o disco, como falei, lá em 1995, mas perdi nas minhas idas e vindas pra João Pessoa, comprei outro dia, lá nas Americanas, novamente, bem baratinho. É disco que pode ser tocado a qualquer hora, em qualquer lugar, porque empolga seja lá quem estiver ouvido. E de lambuja, ainda traz o Rei, na voz do Samuel, fazendo certa apologia, em "É proibido fumar", música que inclusive entrou para um projeto de Frejat para canções de Roberto interpretadas por outros artistas.

Esse é o calango. Brasileiro como o bicho e como a cultura do país. Um disco singular que mistura tendências jamaicanas que se encaixaram com o jeitão brasileiro de fazer música desse grupo mineiro que acertou em cheio na escolha do repertório e de como executá-lo com perfeição, agregando os valores da música brasileira a elementos eletrônicos e que resultou num dos melhores discos brasileiros da Música Popular que conheço.

Uma letra - Alma Nua - Vander Lee


Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"Construções" diferentes...


Outro dia, enquanto ouvia "Formato mínimo" do Skank (aliás num disco muito bom dessa banda que não canso de escutar, sobretudo pelo que os integrantes da banda conseguem escrever) me lembrei que aquela idéia de construir os versos terminando sempre com proparoxítonas não era exatamente original: fazia lembrar automaticamente "Construção" de Chico.

E, são, guardadas as devidas proporções do que Samuel Rosa ainda tem que crescer para chegar a Chico, temos duas idéias expostas de maneira genial e que, coincidentemente, falam de relação amorosa: O amor de Chico que sucumbe frente a uma rotina que gradativamente mata (pelo príncipe, pródigo, bêbado, tráfego, náufrago, flácidas...) e o amor de Samuel, interpretado de maneira diferente pelos que se amavam (ele, que procurava a próxima, oferecia ácido, procurava álibis, sucumbia ao pânico e procurava uma transa típica - o amor em seu formato mínimo e ela, que procurava um príncipe, reparava nas vírgulas, flutuava lépida e descansava lívida, despertou-se tímida, feita do desejo a vítima.

Pelo amor de Chico:

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Pelo de Samuel:

Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido
Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida

Mas também me lembrei de outras construções interessantes no que diz respeito à fuga das formas usuais de fazer a letra das canções.

De fato, "Cadê teu suin" do Los Hermanos (Marcelo Camelo)é genial, a última palavra do verso se emenda com o outro verso, como eu nunca vi em outra letra:

Cadê teu repi
quem é teu padrin
onde é que tu to
Cadê teu suin?
guitarra não po
desista mole
quem é que te indi
cadê teu suin?
com que sobreno
melhor ir sain
dou nem mais minu
to nem mais
Ainda tem a cora
gentinha atrevi
da cá sua vi
da cá seu suin
guilhotina?

De outra maneira também bem peculiar e que eu nunca tinha visto, é a composição de Pedro Luis e Mariana Aydar em "tá?", música que denuncia de maneira poética a degradação do planete pela ação humana. A música em si é baseada num jargão que diz que "pra bom entendedor meia palavra basta". Apegado no jargão (e também no refrão que é esse também), todos os versos terminam com a última palavra pela metade (se meia palavra basta, então...) e a coisa ficou completamente inovadora e incrivelmente simples, ao mesmo tempo que impensável:

Pra bom entendedor, meia palavra bas-
Eu vou denunciar a sua ação nefas-
Você amarga o mar, desflora a flores-
Por onde você passa, o ar você empes-
Não tem medida a sua ação imediatis-
Não tem limite o seu sonho consumis-
Você deixou na mata uma ferida expos-
Você descora as cores dos corais na cos-
Você aquece a Terra e enriquece à cus-
Do roubo do futuro e da beleza augus-
Mas do que vale tal riqueza? Grande bos-
Parece que de neto seu você não gos-
Você decreta a morte, a vida indevis
Você declara guerra à paz por mais bem quis-
Não há em toda fauna, um animal tão bes-
Mas já tem gente vendo que você não pres-
Não vou dizer seu nome porque me desgas-
Pra bom entendedor, meia palavra bas-

E, lembrei, por mais recente, de uma música do disco novo do Zeca Baleiro, "Débora", onde além dos recursos de combinar as proparoxítonas no final dos versos, o maranhense também faz uso de aliterações, reforçando o som consonantal de algumas palavras (sempre com muito bom humor, como é característica do Zeca):

Débora, és uma víbora
Sai da minha aba, vagaba
Para com esse mantra, pilantra
Chega de caô, ô , ô
Tu não me engana, mana
Sei que fui um trouxa, poxa
Mas agora chega, nêga
Cínica, fui bater na clínica
Fiquei no osso, moço
Melhor que te afaste, traste
Nem vem que não tem, neném
Sei que fui babaca paca
Vou picar a mula, chula
Cansei de ser besta, basta

São construções que não são muito comuns de aparecer não, e quando acontecem, acabam por chamar a atenção de maneira peculiar, sobretudo porque o modo de pensar desses compositores tem sempre que acontecer também de modo completamente inovador, que faz variar não só como os versos são feitos, mas também como a melodia da música tem que ser montada para contemplar as potencialidades de quem assim escreve.