Seja Bem-Vindo!

Aqui se fala sobre música, sobre artistas e sobre bandas da cena nacional e internacional, de hoje e de sempre!

Já se falou aqui?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Los Hermanos - Recife - 15 de Outubro de 2010


Dessa vez não tem foto. Não tem foto porque simplesmente não tinha condições de se chegar na frente do palco. Los Hermanos fizeram uma apresentação histórica, emocionante e apoteótica, para dizer o mínimo. E eu estava lá. Eu e os meus hermanos, junto com uma galera agradabilíssima.

Como resolveram fazer apenas dois shows no nordeste, Recife não poderia ficar de fora, tendo em vista que foi verdadeiramente lá, durante o Abril Pro Rock que a banda teve, no mesmo lugar – Centro de Convenções – em que se apresentaram neste dia 15, a certeza de que a carreira da banda tomava um rumo que nem eles mesmos imaginavam. Se era uma homenagem à cidade por causa disso, muito maior a homenagem que Recife fez, desde muito antes de começar o show, à banda.

Qualquer música que era entoada por um pequeno grupo, logo estava sendo cantada por toda a audiência. E de forma ensurdecedora. E foram várias antes da banda entrar no palco. Emocionante. Seguidamente, “O vencedor” (que virou meio hino da banda) foi cantada antes que os barbudos entrassem...

Quando a banda entrou, com duas horas de atraso – motivado por uma desorganização absurda na entrada do espetáculo, que tinha uma fila enorme para receber os ingressos de quem tinha comprado pela internet, Rodrigo Amarante olhou pra platéia e pediu paciência por causa do aperto. Era muita gente, muita mesmo. Não tinha como sair do lugar e, quem saísse, não conseguia mais voltar.

Mesmo o som estando bom (fora umas falhas pontuais no meio do show...), os caras inspirados, tinha hora que a platéia definitivamente abafava a possibilidade de ouvir qualquer coisa de som que vinha do palco. O show estava sendo feito da platéia para o palco. Marcelo Camelo, parou, na terceira música é disse: “Cara, vocês são foda! Vocês são foda!”. E Recife é mesmo. 18 mil pessoas feito sardinhas em uma lata, cantando emocionadas.

Deu pra perceber que Rodrigo Amarante está mais louco do que nunca e que Marcelo Camelo está bem forte, parece nem lembrar mais aquele magro esguio do começo da banda. Mas é certo o toque de Midas do primeiro na musicalidade da banda e a poesia rasgada de romantismo do segundo. Medina leva um som que compõe com a guitarras dos dois primeiros e Barba, que não acompanha a qualidade sonora dos seus colegas, faz a cozinha de maneira básica.

O setlist contou com todas as top da banda, entrelaçando os três últimos discos, somando-se “Pierrot”, do primeiro. Jogaram confetes em "Todo Carnaval tem seu Fim" e terminaram com “A flor”, com um povo gritando enlouquecido, e palavras de Camelo, dizendo estar sem palavras...

Uma hora e quarenta e cinco de muito som, de um delírio, provando que a banda teria tudo, se quisesse, para retornar ao trabalho junta, porque, segundo eles mesmos, ainda continuam jogando baralho juntos... E dá uma tristeza enorme ver aquele povo todo (eu também, com meus hermanos também...) tem que procurar coisas diferentes pra substituir o lugar que estaria reservado para os próximos discos da banda. Saiu todo mundo alegre pelo que viu e triste pelo que não vai ver... Nem vontade de ficar pra ver a outra bandinha tocando deu.

Fomos todos embora, com a sensação de que teremos que esperar (por quanto tempo?) novamente, que eles abusem de estarem sozinhos e queiram, de novo, contemplar seu público com seu retorno ou mesmo com uma outra apresentação como esta, apenas para deixar mais viva ainda a sensação de que ninguém tomará – não que eu conheça, por enquanto – o seus lugares.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Discos da Minha Vida - Calango - Skank


Esse aqui é outro disco dos primeiros que comprei em CD, se bem me lembro, lá nos idos de 1995 (o disco é de 1994), quando então praticamente metade do disco já era tocada direto nas rádios da cidade (e de todo país).

Amolação, Jackie Tequila, Esmola, A Cerca, É Proibido Fumar, Pacato Cidadão, Te ver... todas tocaram absurdamente nas rádios, nas festas, nos bares, nas boates, e o Skank estourou no Brasil.

O nome do disco, "Calango" faz referência a um tipo de desafio de cancioneiros caipiras sobre um mesmo tema, como acontece em "A cerca", como se fosse um mote das músicas dos violeiros.

O disco, que vendeu mais de um milhão de cópias e que tem o Lelo na capa (que tem o jeitão de fantasia de carnaval mesmo - em comemoração, inclusive, pelo título no futebol em 1994) é, ao mesmo tempo que um marco na história do próprio Skank, porque definitivamente projetou o grupo no cenário nacional (porque vendeu mais de 4 vezes o que o primeiro disco) é também, singular na própria história musical do Skank, porque apesar do primeiro disco possuir algumas músicas que têm a batida bem dancehall jamaicano (característica marcante no Calango), que algumas vezes lembra Jimmy Cliff e até o UB40, parece que foi completamente esquecida no "Samba Poconé" já dois anos depois. E nunca mais. Há inclusive quem radicalizou a dizer que foi o único disco bom do Skank, o que é, na minha opinião, um grande exagero.

Não que o Skank não tenha refeito as suas próprias concepções e tendências musicais - que continuam, diga-se de passagem, ótimas nas letras de Samuel e do sempre presente Chico Amaral - mas de fato nada foi feito que se pareça com as batidas envolventes do Calango. Muito metal, batidas de reggae, ska, sintetizadores, programação eletrônica misturados com uma guitarra de levada caracteristicamente brasileira.

Nas letras, o disco todo é recheado de muito bom humor, misturando situações amorosas com momentos vexatórios (transformados em versos humorísticos), como em "Amolação":

Deus lá de cima sabe muito bem
Qual a minha sina: o que que me convém
Bicho do mato ela veio comigo
Teve ninho, carinho, broa, abrigo
Labutei na roça, labutei no milharal
Labutei passando bem
Labutei passando mei mal
Bruma no cerebro dela de repente
Brus tão brusca, brus bruscamente

Ou principalmente em "A cerca":

Tu cerca a terra, tu cerca até o mundo
Então cerca tua filha, toda noite aqui no fundo
Pois te conto um segredo
Cê não conta pra ninguém
Andam vendo tua mulher
Com o dono do armazém
Maledicência, eu já tó acostumado
Até dizem que o senhor é incapacitado
Eu tomo chuva, tomo ar puro de manhã
Minha saúde é de ferro, pergunte pra sua irmã!

Mas vai também (e o tema é sempre muito bem trabalhado pelo grupo em todos os discos) falar de amor, quando Samuel pede: "me dá um beijo, porque o beijo é uma reza pro marujo que se preza..." ou então quando diz que "te ver e não te querer é como esperar o prato e não salivar; Sentir apertar o sapato e não descalçar; É ver alguém feliz de fato sem alguém pra amar; É como procurar no mato estrela do mar..."

Também vai o grupo no social, ainda que de forma bem humorada, falar da tragi-comédia da miséria brasileira em "Pacato Cidadão", "Estivador" e "Esmola", onde se ouve que

"Eu tô cansado, meu bom, de dar esmola
Essa quota miserável da avareza
Se o pais não for pra cada um
Pode estar certo
Não vai ser nenhum"

e diz até que é necessário:

"Abolir a escravidão do caboclo brasileiro
Numa mão educação, na outra dinheiro." (Pacato Cidadão)

Personagens também são marcantes na discografia do grupo. Nesse disco, tem o misterioso "Sam" e, pricipalmente (a música mais executada do álbum) "Jackie Tequila", uma menina muito louca que vai no Funk, vai no Baião, vai no Reggae e que enlouquece o contador da estória, que resume a vida de Jackie numa estrofe que é cantada por todo mundo, nas rodas de violão e nos shows do skank, onde quer que ele toque, em duas notinhas, num reggae muito legal:

"Jackie foi nascer numa cabana em Noa Noa
Sol do Taiti na pele, nowboah
Seu pai cruzou o mar, duas filhas na canoa
Côco pra beber e leite de leoa
Jackie é uma menina tão bonita que enjoa
Enjôo de vertigem, viagem de avião
Hálito de virgem, dois olhos de amêndoa
Vaca, cadela, macaca e gazela
Linda toda, toda linda ela
Toda beleza se reconhece nela
Jackie Tequila, coca-cola e água
Égua, língua, mingua minha mágoa."

Comprei o disco, como falei, lá em 1995, mas perdi nas minhas idas e vindas pra João Pessoa, comprei outro dia, lá nas Americanas, novamente, bem baratinho. É disco que pode ser tocado a qualquer hora, em qualquer lugar, porque empolga seja lá quem estiver ouvido. E de lambuja, ainda traz o Rei, na voz do Samuel, fazendo certa apologia, em "É proibido fumar", música que inclusive entrou para um projeto de Frejat para canções de Roberto interpretadas por outros artistas.

Esse é o calango. Brasileiro como o bicho e como a cultura do país. Um disco singular que mistura tendências jamaicanas que se encaixaram com o jeitão brasileiro de fazer música desse grupo mineiro que acertou em cheio na escolha do repertório e de como executá-lo com perfeição, agregando os valores da música brasileira a elementos eletrônicos e que resultou num dos melhores discos brasileiros da Música Popular que conheço.

Uma letra - Alma Nua - Vander Lee


Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta