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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Lenine, Festival de Inverno de Garanhuns, 18 de Julho de 2015

Lembrei de certa vez, com o grande amigo Sevé, nas ruas do Recife antigo, depois de ter passado o dia - e parte da noite - em Olinda (coisa que já não se faz mais...) e estávamos então vendo um Lenine fazendo a plateia cantar "Marco Marciano", numa das imagens musicais mais forte que tenho até hoje. No mesmo dia vimos Antônio Nóbrega, Moraes Moreira. Numa outra vez, da mesma forma marcante, eu estava num show com minha irmã, Deyna, na praça Antenor Navarro, em João Pessoa, oportunidade em que Lenine tocava num palco tão baixo, que lembro de minha irmã dizer que quase dava pra agarrar as madeixas dele... naquele dia, vimos fogos de artifício deitados, descendo pro porto do capim... Depois de ver o show da Cabruêra.
Dessa vez, a platéia também estava emocionada, pois que dois dias antes, 'seu Geraldo', pai do cantor, havia falecido, e apesar da especulação de cancelamento, ele resolveu manter sua apresentação. De preto, visivelmente contido em alguns momentos, Lenine trouxe a emoção do começo ao fim, e parece que o mote do Carbono - elemento tão ligado à todos os ciclo da vida, e da morte - nome do seu disco, se tornou fatalmente apropriado para o momento, quando ele anunciou que todas as noites, aquela presente e 'as que vieram e as que virão' eram dedicadas ao pai. E a letra de 'Castanho', ao anunciar que "o que eu sou, eu sou em par; não cheguei sozinho" de cara já dava o tom desse show emocionante. Aliás, esse refrão começou - e encerrou - a noite.
Debaixo de uma chuva considerável, e de um frio bem mais considerável ainda (14ºC), o Disco que dá nome à turnê foi a espinha dorsal do show, e vieram "O impossível vem pra ficar", uma letra lindíssima, numa levada em contratempo tão marcante de toda a carreira e de tantas músicas; "Cupim de Ferro" (pra mim, a mais foda de toda o disco), numa parceria inédita - "pagando um débito" que ele e a Nação tinham, reciprocamente; "Grafite Diamante", que brinca com versos e contrastes; "Quem leva a vida sou eu" - ( A vida é pra se louvar, venha o que vier, valha o que valer!) e "Simples Assim", essa, pra mim, a letra mais bonita do disco: 'E a vida continua surpreendentemente bela Mesmo quando nada nos sorri; E a gente ainda insiste em ter alguma confiança Num futuro que ainda está por vir; Viver é uma paixão do início, meio ao fim; pra quê complicação? É simples assim.').
Dizendo que no setlist que preparou para o show, algumas músicas não haviam sido contempladas (certamente por simples impossibilidade do tempo de show, e não de importância), Lenine, à pedidos da plateia, cantou, primeiro, "Paciência". E na verdade, ele mal cantou, porque deixou a platéia, completamente emocionada, cantando, enquanto ele, sozinho no palco, empunhava sua guitarra, conduzindo a todos. Logo após, o hino 'popular' de pernambuco, "Leão do Norte" levantou a audiência, ainda que também tocada apenas com a guitarra.
Vieram as outras escolhidas: A rede, Paciência, Na Pressão, Meu amanhã, Candeeiro Encantado, e por ai o show se desenrolou sempre muito emocionante, mas cheio de suingue, como é típico de Lenine.
Não quis sair do palco para ser ovacionado e voltar para o bis. Explicou que essa coisa de 'fazer cu doce', era só perda de tempo. Melhor ficar ali no palco e ganhar tempo com mais músicas... Certissimo!
E assim tudo se desenrolou até quase quatro da manhã, debaixo de chuva e frio (aplacados com vodca), na companhia agradável de amigos (Fernando que fez a foto do topo do texto) e do meu irmão Vinicius (esse ser evoluído em todos os aspectos).

Lenine, um dos artistas mais completos do Brasil - e com projeção considerável mundo afora - com esse disco (que foi feito e mixado em dois meses) e esse show, mostra sua capacidade de criações que são, não só do ponto de vista musical (agora com o retorno de bastante bateria e percussão, que estavam sendo um tanto quanto preteridas - o disco vem bastante voltado à cultura pernambucana, com várias marchas, cirandas, frevo, maracatu, manguebeat) mas sobretudo conceitual, muito completos e complexos. A escolha de temas centrais que formam uma espécie de guia temático (explicados por ele mesmo em várias entrevistas) como em outros discos (Labiata, O Dia em que faremos contato, Chão) agora mostra, em diversas composições da obra, como o Carbono, de ligações tão simples e de infinitas representações a partir dessa simplicidade, representa uma riqueza que pode muito bem ser entendida entre o grafite que foi usado para rabiscar a capa do disco e o diamante em que, lapidado, se torna o carbono.

É quase o grande segredo da vida!



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Discos da Minha Vida: "Promisses And Lies" - UB40


"Para Dé, a nota Sol da minha Vida"

É o que está escrito por meu pai em março de 1995 na capa de um dos melhores discos que já escutei na minha vida e que, certamente, faz parte da história recente do reggae no mundo inteiro.

“Promisses and Lies” é o décimo disco da banda UB40. Antes dele eu já havia escutado "Rat in my kitchen" quando tinha meus 13 anos por influência de um amigo chamado Marcos Paulo Lustosa, cearense que adorava os caras.


A banda é formada em Birmingham, em 1978, quando parte do futuro grupo, desempregados, esperavam para preencher um formulário de desemprego (Unemployment Benefit form 40) e acabaram, como numa dessas coincidências da vida, resolvendo fazer música. O próprio Formulário, o UB40, se tornou capa do seu primeiro álbum, que se chamou “Signing Off". Uma sacada muito especial, não é demais perceber...


As questões sociais, bem como o posicionamento na defesa dos negros e excluídos, os guetos, sempre foram presentes na banda. Mesmo assim, a mistura de ritmos, o reggae aliado ao Dub (som bem característicos da classe baixa na Inglaterra, difícil de entrar nas paradas) acabou sendo muito bem recebida pela classe média branca inglesa que se tornou o público alvo da banda durante toda a sua existência (hoje atingindo todas as classes...). As influências vão de Neil Diamond (de “Red, red wine”, regravado pela banda e grande sucesso – para muitos o que desponta o grupo para a grande mídia) até Afrika Banbaataa, passando, obviamente, por Marley, Tosh e toda cultura rock e pop dos anos 80.

Mas Nenhum dos álbuns até então chegaram nem perto de “Promisses And Lies”, que se tornou o álbum mais vendido do grupo com mais de nove milhões de cópias vendidas. A música que dá nome ao disco e “Can’t Help Falling in Love” levaram a banda ao seu terceiro n.1 no Reino Unido e continuaria a ser um favorito em estações de rádio americanas nos anos seguintes, especialmente após a sua inclusão na trilha sonora no filme Sliver, com Sharon Stone, em 1993.


Em minha opinião, “Bring me Your Cup” é a melhor do álbum. E apesar do cunho social permear sempre os discos da banda, esta disco é especialmente diferente, pois desde a sua configuração de capa e encarte, com gravuras do próprio Ali Campbell, está muito voltado para representação do amor, da contemplação e celebração da vida. Aliás, C’est La Vie abre o disco de maneira magistral, falando das agruras da vida, e o disco segue falando sobre fé, sobre companheirismo, cumplicidade, sobre seguir em frente, sobre amizade (em Reggae Music, cantada por Astro, falando da amizade entre os membros da banda...) e desemboca na grande estrela do disco, que ficou durante 9 semanas consecutivas como número 1 na Inglaterra, a regravação de “Can’t Help Falling in Love”, famosa na interpretação de Elvis. 

Mas o que encanta mesmo, e envolve, é a batida de reggae sempre envolvida por Dubs, muito metal, e muito, muito trabalho vocal de todos os integrantes, que formam um coral em praticamente todas as músicas. É um passeio musical magistral, que se escuta do começo ao fim, sem pular nenhuma faixa.

Termina, num disco quase todo feito para cantar o sentimento, num apelo negro, dizendo:

“If you say sorry
Can I assume you've realised the shame
The seeds of your oppression
Fall and ripen with aggression
You can't hold us any longer with your chains
Time to compensate us for our claims”
(Sorry)

O vocalista Ali Campbell saiu do grupo em 2008, depois de trinta anos. Até já se apresentou no Brasil, utilizando a mesma lógica que levou o UB40 a ser o grupo de reggae de maior sucesso de vendas da história, mas agora sozinho. No UB40, para substituí-lo, chamaram o irmão, Duncan Campbell, como vocalista.

Esse disco, atemporal, está sempre na agulha. E na minha trilha pessoal, tem lugar garantido.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Um vídeo - Clarice Falcão - Monomania

Uma obra prima. Como as músicas boas são: simples.

Já te fiz muita canção
São quatro, ou cinco, ou seis, ou mais
Eu sei demais
Que tá demais

Eu chego com um violão
Você só tá querendo paz
Você desvia pra cozinha
E eu vou cantando atrás

Hoje eu falei
Pra mim
Jurei até
Que essa não seria pra você
E agora é

Se juntar cada verso meu
E comparar
Vai dar pra ver
Tem mais você que nota dó
Eu vou ter que me controlar
Se um dia eu quero enriquecer
Quemvai comprar esse cd
Sobre uma pessoa só?

Hoje eu falei
Pra mim
Jurei até
Que essa não seria pra você
E agora é






domingo, 27 de maio de 2012

Uma letra - Felicidade - Marcelo Jeneci e Chico César



Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz.
Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz.
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais.

Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
Dançar na chuva quando a chuva vem.

Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar.
Nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.

Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
Dançar na chuva quando a chuva vem.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Los Hermanos - Abril Pro Rock - Olinda - 20 de abril de 2012

Em três anos, três shows do Los Hermanos, e olha que eles insistem em dizer que a banda acabou... Mas agora havia uma boa desculpa: a comemoração de 15 anos da (extinta?) banda.

Tudo bem, tudo bem, apesar de ser notório que eu mesmo já não pertenço à fase do encantamento inicial com a banda  - vi gente no show que tinha, certamente, menos da metade da minha idade. Eu mesmo estava acompanhado por Sofia, que tem menos que isso ainda e que é bom parâmetro para boa parte dos fãs que estavam lá no Chevrolet Hall no primeiro dia de Abril Pro Rock, comemorativo de 20 anos de existência e que brindava o público com uma das bandas que, desse festival, partiu para a consagração nacional em 1999 - o show serviu para mostrar que as músicas já têm vida própria e continuam emocionando o público, que canta enlouquecido cada uma delas.

Quando, depois de tomar um gole de cerveja, Marcelo entoou: "Moça, olha só o que eu te escrevi: É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê!", o final da frase abafou completamente o som vindo do palco, num coro avassalador do público, já com gente nas costas do outro, com celulares filmando nas mãos, se apertando para ter uma visão melhor nas mais de duas horas e 30 músicas  - algumas, inclusive, incluídas por vontade do público (Pierrot), arrancada sem ensaio - que foram as primeiras de uma turnê que vai durar até o meio do ano.

O som, aliás, começou bem ruim e foi melhorando ao longo da apresentação.

Quando comprei, há uns dez anos atrás, o Bloco do Eu sozinho, muitos dos que estavam ali tinham 7, 8, talvez 9 anos, e, certamente, estavam escurando outras coisas. Nenhuma crítica - na verdade, é sempre importante manter a renovação de público - e no caso dos Los Hermanos é mais ainda, tendo em vista que (em tese) ainda estão num pseudo-hiato deste 2007. De fato, tem muita gente, inclusive, que começou a ouvir a banda depois que ela se desfez. É estranho. O normal é escutar Beatles, Legião, Led Zeppelin (as bandas acabaram e as músicas continuam por gerações, tudo bem). Mas como ficar ir a show de uma banda que acabou e que faz turnê, tem potencialidade para disco e não os produz? É difícil entender, sobretudo com duas cabeças como as de Marcelo e Rodrigo.


Disso vale a pena dizer que ou há um desentendimento mútuo entre os integrantes da banda (e das quatro oportunidades que a vi no palco, esta parece, num olhar mais cuidadoso, a que mostra uma economia ainda maior de comunicação e mesmo de sintonia entre eles... Menos Hermanos que nunca, eu diria); ou então só se procuram para fazer dinheiro exatamente com a garantia dos novos fãs (que seguem, e seguirão, certamente, lotanto as casas de show como fizeram no Recife com mais de 15 mil pessoas), pois por mais promissores que os projetos solos sejam, nem se comparam com o que certamente se arrecada com a banda reunida.

Poxa, vida! Por que não se reunem na Chácara e produzem 12 músicas e lançam um novo disco? No palco, apareceram músicas que nem nome têm ainda, o que mostra que um disco poderia acontecer e facilmente atrairia a curiosidade de quem acompanha a banda há mais tempo e os novos fãs também.

No palco, uma separação que começa a aparecer desde Ventura: Rodrigo (numa estranha magreza, além de bem bronzeado), o músico, o arranjador, o construtor de letras mais complexas e Marcelo, o melancólico, quase meloso, usando um microfone retrô e com suas letras de amor. Mas pouco divertimento entre eles, isso estava claro.

Rodrigo até reclamou de um grupo de fãs que reclamaram um pouco em virtude das distorções provocadas propositalmente pela banda: "Não posso fazer nada. Curte a energia, cara. Usa a imaginação", disse ele.

Mais à frente, conclamou o público a ver os outros shows, das outras bandas, dizendo: "em 99 éramos nós que estávamos no festival".

Além dos Los Hermanos, o Abril Pro Rock teve nessa mesmo sexta-feira os curitibanos d'A Banda Mais Bonita da Cidade com sua sorridente e lúdica vocalista Uyara e o hit instântaneo "Oração"; o pernambucano Tibério Azul, com participação de Vítor Araújo; e os catarinenses do Somato, ganhadores de um concurso patrocinado pelo chocolate Bis. Só deu pra ver o finalzinho da banda mais bonita, cantando, exatamente, seu hit de internet. Foi legal.

Mas de tudo, resta a certeza do começo de uma turnê que já está com os ingressos, pelo que eu sei, praticamente esgotados desde o lançamento. Sucesso garantido para uma banda que faz das suas músicas verdadeiros hinos, cantados com devoção pelo seu público que continua - mesmo que tenhamos novas esperanças com Marcelo Jeneci, Thiago Petit e outros - tendo oportunidade de ter contato com boa música - rock pesado, MPB, Samba, Ska, tudo misturado numa poesia só, que se espera possa ir além do que se vê!

Setlist:
Além do que se vê
O vencedor
Retrato para Iaiá
Todo Carnaval tem seu fim
O vento
A outra
Morena
Primeiro andar
Mais tarde
sétimo andar
Um par
Sentimental
Cadê teu suín?
Acostumar
- Marcelo Camelo
A flor
Cara estranho
Condicional
Deixa o verão

música sem título - Rodrigo Amarante
Pois é
O velho e o moço
Conversa de botas batidas
Último romance

música sem título - Rodrigo Amarante
Casa pré-fabricada
Tenha dó
Pierrot

terça-feira, 8 de maio de 2012

Uma letra - Drão - Gil

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar n'algum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura

Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura




Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura

Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão

Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre nasce trigo
Vive morre pão
Drão, Drão

Bastante Atrasado - Frejat - Busto de Tamandaré - 28 de Janeiro de 2012

Bem atrasado, mas ainda a tempo de se atualizar...
Dia 28 de Janeiro se encerrou o projeto Estação do Som em João Pessoa com o show do carioca Frejat, chamado de "A tal da Felicidade". E esse realmente foi o clima de praticamente todo o show, com um repertório que saiu muito do roteiro "Barão Vermelho" e foi a Caetano, com "Você não entende nada", passou por Cazuza, com "Por que a gente é assim", um medley muito suigado - e segundo o próprio Frejat, do tempo em que havia realmente a Black Music brasileira - com "Não vou ficar, Réu Confesso e Você, todas da Vitória Régia e do saudoso Tim Maia. Indo além foi também no Pessoense Herbert Vianna, cantando "Caleidoscópio". Assim, nessa primeira parte do show, ele acabou surpreendendo os que, talvez como quem vai a um show sem saber exatamente o que vai ser tocado, não esperavam muita coisa do ex-guitarrista do Barão. Na segunda parte do show, Frejat entra nas suas composições pós Barão (e a partir de 2001, com "Desejos") e vai variando com as mais consagradas e conhecidas do público. Das óbvias aparecem "Malandragem", "Amor pra Recomeçar", "Por Você", "Bete Balanço" e "Puro Êxtase". No meio dessas, entrecorta com "Ainda é Cedo" do Renato Russo (uma das minhas preferidas) e, no Bis, faz a linda ‘Pra Recomeçar’ e "Segredos" (quem não viu o clipe, é lindo, vale a pena, foi inclusive vencedor do VMB - Melhor clipe POP 2002 e do prêmio Multishow 2003), e na última música, uma surpresa, com Bruno Gouveia subindo ao palco e, com sua atuação performática, já bem conhecida e adorada pelo público pessoense, dividiu com Frejat o hit "Exagerado", levando o público ao delírio. Pena que ele mesmo (Bruno) que tinha show marcado para a praia de Intermares logo após o show de Frejat, amargou o cancelamento da festa - acho que por falta de público mesmo.
Apesar das reclamações da imprensa local depois do show, alegando que Frejat não falou com ninguém antes de entrar no palco, o show foi magistral. Na minha opinião, melhor que o de Lulu Santos, que fez, esse sim, um show burocrático e sem a menor empatia do público (que já tinha um lance de mal-estar com ele). Frejat se comunicou o tempo inteiro com a platéia, elogiou o show anterior de "Zé Viola", e disse, no final que "vou ficar velhinho e não vou esquecer esse show aqui". Foi realmente muito simpático e empolgou a platéia, que saiu maravilhada com o que viu. Não era o Barão, é verdade. Nunca seria sem Cazuza, mas aparentemente, depois de um amadurecimento muito intenso do pondo de vista musical, Frejat se tornou um compositor virtuoso, de letras ricas e que também não deixa de revisitar velhos ritmos dos quais parece gostar muito, como é exemplo da Black Music brasileira. Encerrou assim, com chave de outro, o Festival de Música em João Pessoa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Lulu Santos - 21 de janeiro - João Pessoa



- Pede desculpa! Pede Desculpa!

Era o que aparentemente gritava um grupo de pessoas perto do palco montado nas areias de Tambaú no projeto "Estação do Som" promovido pela prefeitura municipal de João Pessoa, que tem se firmado no calendário do Nordeste como ótima opção para a população que gosta e aprecia a boa música. Lulu Santos estava no Palco.

E quando uma carinha, intrigado, com penugens no rosto perguntou: - "pede desculpa pelo quê?", alguém teve de explicar que em algum momento do passado (há mais de 10 anos) Lulu Santos destratou uma platéia na mesma cidade onde, agora, acontecia o show. Explicou também que em virtude da idade do questionador, ele, provavelmente, era muito "juvenil" pra saber o porquê da exigência da retratação do artista. Mas ele disse que ia "twittar" isso. "Yeah, right", como diria Yve.


Ele não se retratou. Nem agradeceu. Nem falou uma única vez o nom da cidade onde estava.

Entrou, desceu o sarrafo na guitarra, fez seus trejeitos meio doidos e foi embora, agradecendo ao público "tirando o chapéu" que usou durante parte da apresentação com sua guitarra verde-piscina.

Outro dia já falei que ele (08 de março/2010 - http://sonstempoesilencios.blogspot.com/2010/03/o-cara-e-um-chato-arrogante.html) é o mais chato da Música Popular Brasileira. Mas também disse que o cara pode. Pelo que fez (e ainda faz) não deve nada a ninguém e se quiser gostar dele assim mesmo bem, se não, bem também.


Aliás, não ter papas na lígua não é uma exclusividade de Lulu Santos, vide Tim Maia, Ângela Ro ro, Rita Lee... o próprio Caetano (que um dia - quem estava lá lembra - perguntou "que balbúrdia é essa?" no Forrock...), sem falar em João Gilberto...

Assim, melhor mesmo é curtir a música, o show, a boa-forma de um sessentão malhado e que ainda leva multidões a cantar refrões que foram grudadas da cabeça de pelo menos duas gerações.

No palco, músicos que já o acompanham há bastante tempo, como o baterista "Chocolate" e o Tecladista "Hiroshi Mizutani", além de uma presença, essa mais nova, de Andrea Negreiros, que faz lindamente o vocal com ele e com o baixista "Jorge Ailton" e o saxofonista "PC".

Abriu com o medley Toda Forma de Amor - Um Certo Alguém - Último Romântico, Apenas Mais Uma de Amor, depois foi um grande desfile dos hits de sucesso, sem surpresas: "Sabado a noite", "De repente Califórnia", "Tempos Modernos", "Tudo bem", "Tudo azul", "Como uma Onda", "A cura", "Condição", SOS Solidão, "Ela me faz tão bem", "Um pro outro", "Adivinha o que", "Já é", "Papo Cabeça", "Assim Caminha a Humanidade".

Das mais novas, "Vale de Lágrimas", mas de minha parte, ele também teria tocado "Dinossauros do Rock", "Brumário" e "Areias Escaldantes". Mas paciência, foi quase uma hora e meia de muita música boa e de um público envolvido pelas letras e pelo som muito dançante de um Lulu Santos animado, disposto, mas sem maiores amores.

Tomara que demore menos para Lulu voltar aos palcos paraibanos, trazendo sua boa música, seu suíngue e sua guitarra, fazendo todo mundo reviver bons tempos, de boa música, mesmo que ele continue assim, um chato de galocha.

Em tempo. Outra vez, de parabens a prefeitura de João Pessoa, por trazer, além de Lulu, Lenine, Ivan Lins, Marcelo Camelo, Luiz Melodia, além de todos os artistas locais que abrem os espetáculos, sem pre muito prestigiados e respeitados pelo público. Esse é o papel também do Poder Público: colocar o cidadão em contato não só com o nacional, mas com o regional também, muitas vezes solenemente esquecido. No caso de Lulu, Glaucia Lima, uma pesquisadora de música, abriu o show, cantando compositores paraibanos, no que foi muito bem recebida.

Fotos: Carol e promocional.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

David Guetta - 12 de Janeiro de 2012 - Centro de Convenções - Recife - PE

Para o amigo Fernando Jr.

Definitivamente, mais uma prova de que hoje, sozinho, o sujeito pode virar um astro sem exatamente ser um grande cantor ou instrumentista. É uma grande mistura de talento intuitivo musical, com todas as possibilidades que a eletrônica proporciona, além de parceiros musicais e produtores de peso.

Mas deu pra perceber que é muito mais no show ao vivo. É uma verdadeira mistura de sensações que não se resumem a ouvir uma música que pega feito jigles de propaganda, uma atrás da outra. A gente se empolga com o que vê - matuto emprenha pelos olhos, como se diz. E eu continuo sendo um grande matuto, porque a visão, nesse caso é um grande catalisador daquilo que se escuta.

Nota ruim, de profundo desrespeito ao consumidor, que paga caro pra assitir o show: a entrada. Desorganizada a mais não poder. E olha que o povo do Recife (e todo mundo de várias partes do nordeste) foi bem educado, porque do contrário, os madeiritos que formavam a entrada/funil tinham ido pro beleléu fácil, fácil. Ainda bem que não aconteceu. Outrossim, a tal da pista premium tomou toda a extensão na frente do palco até o fundo, a pista simples ficou bem na lateral, mas não tava incomodo não, só para registrar que daqui a pouco, a parte privilegiada, que é, normalmente pra ser menor, estará bem maior. Será VIP ficar na pista comum, espaço bem mais reservado. Uma Casa Grande e Senzala ao Contrário. Agora só sendo ultra-super-Vip pra ter algum privilégio - área lounge, massagem e uísque na faixa.



E tudo começa com um vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=doCVwcknfUA) onde Will.i.am, Rihanna, Pitbull, Norman Cook, Chris Willis, Afrojack, Akon, Snoop Dogg, Sia e outros falam do quanto ele mudou a cena da música eletrônica, e realmente aproximou ainda mais a música pop dançante com a batida eletrônica, tão bem encaixada por ele nas produções desses artistas. Alguém diz que ele está no topo, e agora faz de tudo para não sair de lá. Não é fácil ter músicas no topo das paradas em mais de dez países ao mesmo tempo. Ele diz qu gosta de tocar e ver a reação do povo na platéia. Acho que o Recife lhe deu gratas surpresas...


E eu, que ainda me embasbaco com tanto laser, ouvi a minha irmã me perguntar, logo na primeira música: "E é David Guetta em 3D, é?". E realmente, durante todo o show, percebi que as luzes e os lasers não são mais apontados para quem está em cima do palco, mas pra quem está embaixo, numa grande interação e criação de um clima de grande Rave. Além disso, é fogo que sai do palco, muito gelo seco, papel picotado laminado voando, fitinhas que voam para a platéia do palco. Tudo embeleza o espetáculo.

Já na primeira música, "Sweet" http://www.youtube.com/watch?v=xHBU10x7ZrA&feature=related deu pra perceber que o show seria inesquecível. De fato, estando agora, definitivamente na rota internacional de grandes shows (e no estilo Armin Van Buuren e Pitbull também já estão a caminho) o Brasil parece que tem a capacidade de embasbacar os gringos. Vários, depois das primeiras vindas ao país, ficam encantados e surpresos como suas músicas são tocadas (e cantadas, gritadas!!!) e ficam (como o próprio Guetta) dando várias oportunidades para a platéia se esganar nas suas músicas. Pra quem é DJ é fácil, é só baixar o som e se deliciar, sozinho, em cima do palco... 15 mil pessoas dá um coral e tanto, não?




E logo no começo, ele disse que aquilo era uma festa enorme, e perguntou se o povo estava pronto. E estava, muito pronto. Todos os vídeos que procurei só dá pra ver um pedaço das músicas, porque depois, a loucura toma conta e o vídeo fica completamente impossível de ver. Dos que ainda se consegue ver bem, consegui esse, de Memories (http://www.youtube.com/watch?v=IhRmDurUwCo) e de Love is Gone (http://www.youtube.com/watch?v=iZIWUCPt1l4&feature=related). Todos mostram o quanto a iluminação daria para sustentar uma pequena cidade de tanta energia disparada pra todos os lados.

Ainda que o show seja recheado de hits (Titanium - Memories - Give me Everything - Where them Girls At - Levels - Club Can't - The World is Mine - Little bad Girl - Rolling in the deep - Sexy Bitch - Gettin' Over You - Love is Gone), ainda dá pra perceber que ele faz remontagens de suas próprias músicas, e usa loops, ecos, distorções entre outros, num quebra cabeça que a galera vai descobrindo e montando ao longo do show. Tudo sempre com muita luz e empolgação. Dele, no palo, e da galera.


Assim, Recife se deliciou e consolida, cada vez mais seu porto seguro em relação aos shows de grande porte, sobretudo os internacionais. Encerrou com Without You e I've Got a Feeling (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=scGNAOc0EF8), e este vídeo foi filmado do palco, e dá pra ver como a galera reagiu ao hit final do Francês que esbanjou alegria e simpatia na Veneza Nordestina.

Lembrei de outro dia, também muita música, mas bem diferente. 2007 e era um tal de Norman Cook, chamado de Fat Boy Slim em uma platéia bem diversa: quase 100.000 (cem mil) pessoas loucas pulando no marco zero. De lá, ficaram algumas coisas: o gosto pelo som, as amizades e o que tinha que ficar.

Tudo com Heineken e na companhia da minha mana, que dançou como eu nunca vi e de Carol, transformando os dias comuns, de quinta, em domingos de carnaval...

domingo, 15 de janeiro de 2012

Patusco e Rica Amaral - 30 de dezembro de 2011 - Pipa - RN



Das duas, uma (como bem concluiu Carol): Ou o cachê da banda foi cortado pela metade, ou então eles se recusaram a continuar com o show daquela maneira, porque o som estava uma porcaria, parecia que a banda não tinha levado um surdo sequer para o palco, em plena noite de pré-Reveillon em Pipa.

Se foi outra coisa, não deu pra perceber, pelo menos não de onde eu estava.

De fato, se no ano passado (http://sonstempoesilencios.blogspot.com/2011/01/o-som-da-pipa.html) o grupo pernambucano foi a grande atração, com uma performance de fazer balançar a Calangos, esse ano deixou muito, muito a desejar, com uma apresentação que se durou uma hora foi muito, que não empolgou, com um som horrível, muito longe do que aconteceu no ano passado e do que é normal para a bateria.




No ano passado, a apresentação foi apoteótica, a banda desceu pra tocar junto com a galera, foi uma empolgação só. Nada nem perto do que aconteceu no penúltimo dia do ano que findou, na Calangão, em Pipa.

Uma grande decepção ter esperado tanto (o show já começou bem tarde, mais de 3 da manhã) para ver uma apresentação pífia, não sei também se pressionado de alguma forma pela loucura que é a praia da Pipa com música eletrônica. Ainda mais quando Rica Amaral (um dos melhores do Brasil) iria se apresentar logo em seguida. Talvez por isso até se justificasse o pouco tempo de show, mas a qualidade, nada justifica.

De fato, Rica é consagrado no Brasil e bem reconhecido internacionalmente. Também estava (e na mesma ordem de apresentação) no ano passado, mas nesse ano, parece que tomou a cena, definitivamente, de Patusco. Foi eleito por vários anos como melhor DJ do Brasil e integrou vários festivais importantes como o próprio Rock in Rio,o Free Jazz Festival o Planeta Atlântida e o Liquid Time. É psi-trance, então tem que estar com todo o gás pra acompanhar. E talvez a decepção de Patusco não tenha deixado nadinha de gás, porque logo fomos embora, mesmo tendo deixado, ao que parece, a galera começando a pular louca no pré-reveillon de Pipa.

Bola fora pro patusco. Parecia engasgado com genipapo, como o pato do Vinícius. Fiasco.

The Time - 03 de dezembro de 2011 - Seduction Party


Ainda que meio atrasado, mas para fazer um bom registro da noite campinense.

Desde a boate One em Campina, que funcionava ali na antiga Vila Borghese, bem em frente ao Dr. Chopp (com ótimos motivos meio oitentão) não se estruturava uma outra casa de vergonha. Até agora.

Definitivamente, a The Time Club (http://www.thetimeclub.com.br/) pode ostentar a designação de boate, não de um galpão, maquiado com uns panos (já viram isso?) e com uns exaustores que matam o povo de calor dentro, enquanto um jogo de luz de 1990 resgatado das festas da aranha (alguém viveu isso?) lá do Alto Branco ficam piscando, e você sempre se lembra que, uma hora ou outra, vai tocar "Fazer amor de madrugadaaaaaaa..." e aí você pensa: sim, sim! Estou na velha e provinciana Campina Grande!

Estrutura decente, Jogo de Laser pesado, mas definitivamente com um projeto de ambientação, som e engenharia de som (pesado mesmo), sem nada arranjado de última hora, com "gambiarras" conhecidas e todas as dificuldades do mundo tão comuns nos arremedos de boates que aparecem por aí. Várias TV's de 40 polegadas espalhadas pelo bar - que por mais que ficasse cheio, permaneceu com bom atendimento, com uma barwoman comandando o serviço.

No fundo da boate tem uma área bem legal, tipo um lounge, onde a galera sai pra fumar, com umas mesinhas, num terraço elevado, bem em cima de onde ficam os banheiros, bem arrumados e organizados.

Nota de serviço fraco foi (como quase sempre é), a turma de apoio na entrada. Meio desorganizado e um pessoal quase sempre despreparado. Onde deveria se prezar a simpatia e a cortesia (afinal se está pagando por um serviço) impera a antipatia e o sempre conhecido estilo brucutu de ser. Mas nada que ofusque o brilho da noite e a qualidade do som e da luz na boate.

O residente/empresário Raphael Almeida começou a noite tocando as que estão bombando no fim de 2011 e início de 2012, abrindo a noite para a grande atração, Milena Scheide, catarinense e que, segundo alguns sites, já tem se destacado no cenário nacional como uma das boas promessas nas pick-ups nas boates e festivais. Integra um coletivo de música eletrônica chamado de Female Angels, e toca em todo o brasil (além de boa parte da América Latina) e também tem começado boas incursões pela Europa, já tendo se apresentado, inclusive, em Ibiza, ao lado de grandes nomes da cena Eletrônica.

Ela esbanjou simpatia e também com um toque de sensualidade, começando a tocar com um terninho vermelho, mas logo estava sem ele, deixando a mostra suas tatoos com motivos meio indígenas, pelo que deu pra ver. Sempre que solicitada, estava fazendo fotos com os fãs, que se revezavam para conseguir registrar o momento com a beldade que, muito mais do que isso, mostrou realmente, para os apreciadores da música eletrônica, que sabe muito. Muitos loops, muitos ecos e passagens impecáveis, com muita técnica mesmo. Bastava olhar pra ver que ela não estava só passando as músicas não, tava botando pra quebrar mesmo.

Mas também, são pouquíssimos os que gostam mesmo. Quando ela começou (porque não tocava os hits somente, mas fazia evoluções de quem conhece mesmo) foi exatamente o momento em que só ficou quem gosta mesmo da música e gosta de dançar e não de ficar pagando de playboy emgomadinho e patrícias de salto agulha atrás de alguma mesa metálica com um litro de alguma coisa fazendo caras e bocas...

De parabéns, novamente, Raphael Almeida. Tomara que Campina suporte, pelo menos por algum tempo, a boate. Quiça possa se criar (coisa dificílima por aqui) alguma cultura diferente na cidade, que vive há décadas, um marasmo tremendo de casas boas e que, parece, por serem boas, terem uma proposta legal (vide bronx, lennon, a própria One...) acabam findando muito mais pelo povo do que por outra coisa.


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Toda cidade tem o Bar que merece



Caríssimos,

É uma pena. Outro dia escrevi por aqui o quão difícil é manter uma cena legal de música e cultura aqui na cidade. Os bares são escassos, os recursos são escassos, a cidade fica, a cada dia mais, aculturada, pobre (de dinheiro e de cultura) e mesmo existindo muita gente bem intencionada, parece sempre que é nadar contra a maré.

Segue o texto de despedida de Ingrid e Hetury, dando conta do fechamento do Bronx. Pedi permissão a eles para reproduzi-lo aqui.
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Toda cidade tem o bar que merece

Se nós nos perguntarmos, ou mesmo perguntarmos a alguém de qualquer parte do mundo o que se teria como ideal de um bar para se curtir na sua cidade, esse alguém provavelmente lhe responderia que o bar teria que ser de fácil acesso, com amplo estacionamento, onde qualquer tostão serviria para o guardador local. Que tivesse cerveja gelada, música ao vivo de qualidade pagável com míseros reais, onde você pudesse se encantar com quem você bem se entendesse sem se sentir desrespeitado ou intimidado, um lugar onde sua turma vivesse de fato em harmonia com o semelhante sem se importar com títulos ou sobrenomes, onde todos vivessem em completa harmonia. Seria possível um lugar assim, onde os seres vivessem suas fantasias em paz? Vos digo que sim, esse lugar de coexistência existe, ou melhor, até ontem existia, bem aqui no centro.

Os fatos que levaram até o encerramento das atividades do Bronx vão virar lenda, porque no fundo não importa o que se diga ou se escreva, no final faltou foi grana mesmo. É muito complicado trabalhar numa cidade onde não existe geração de renda. Vocês se lembram qual foi a última empresa que abriu na cidade que gerasse renda para mais de 1.000 pessoas? E olha que não estou falando de nem 1% da população campinense. Como se sai de casa para curtir sem grana? Não dá!

Como dinheiro gera dinheiro, essa é uma lei do nosso velho capitalismo, estamos indo para onde ele está no momento, porque por mais que as pessoas daqui neguem, um fato é relutante na minha cabeça, não consigo mais viver no marasmo. Por isso vamos a luta, vamos começar de novo.

Numa hora de despedidas são necessários os agradecimentos as pessoas que estiveram sonhando conosco até o ultimo timbre: A Fábio Rolim, Laércio Barros (o benevolente), Nivaldo segurança, Bob, Daianne Porto, Juliana Santos, Raoni Oliveira, Priscila, Caju, Isaac (Equipe Bronx); a todos os músicos daqui, dali e de acolá; aos parceiros e coletivos; aos amigos Helenaldo e Amanda, Adriano, Ivan, Carol e Danilo, Ellen, Poliana, a grande Val Danada, Patrícia, Robitcha, Célio Barros e os meninos super poderosos da Rox, Franz lima e Manu, a Felipanpis. A cada um de vocês, inclusive os esquecidos, o nosso simples OBRIGADO. Somos gratos pela capacidade de vocês em ajudar sem medida o próximo, esse é o significado real de SER humano.

E a você que sempre chegava pra nós e pedia com tanta vontade que desse certo e que agente permanecesse por aqui, desculpa, mas não deu.

Para você que torcia contra, desculpa, mas não deu certo, estamos indo para Fortaleza ver a copa com uns chegados, enquanto você vê pela TV de 14”.

E se foram dois anos de muita música, muitos amigos, sorrisos, abraços e beijos, cerva gelada e um calor danado, mas acima de tudo muita beleza. Como era bonito de ver o Bronx lotado, todos com os punhos cerrados para saudar o presente divino de VIVER.

A Maria Clara e a Cleuda pelas orações e bênçãos, que Deus as abençoe. Amo vocês.

A Ingrid, minha mulher, meu amor é seu, pra todo sempre, amém.

Valeu,

Até breve.

Por Maria, por Helena, por Nós.

Hétury de Araujo Estrela.

O Rappa - Dommus Hall - João Pessoa, 12 de novembro de 2011


Mais uma vez a completa certeza de que continua sendo a banda brasileira que mais produz e continua a produzir boa música, bons espetáculos, bons discos. Mais uma vez a energia que Falcão passa para a galera é uma coisa bombástica. Como se fosse morrer logo ali, depois do show então... como ele mesmo diz: BOTA PRA FUDER!!!

E esse show, diferente dos muitos que eu já vi, não teve espaço pra respirar entre músicas pesadas e mais leves, porque foi totalmente intenso, do começo ao fim. Talvez pela parada que deram de quase dois anos, motivada, aparentemente, por algumas diferenças entre os membros da banda, mas que no final se mostrou necessária não pelas diferenças, mas pelo cançaso mesmo de quase 20 anos de estrada, tenha feito com que tivessem vindo com tanta gana. Pelo menos é assim que Xandão tem dito nas entrevistas.

De toda forma, Falcão agradeceu algumas vezes por a galera "ter esperado o Rappa voltar" e mandou, no começo: "Avisa pra todo mundo que o rappa voltou!"

O show começou com o telão mostrando um tipo de resumo das conquistas do rappa, as capas dos discos, os prêmios de música, além de depoimentos dos integrantes, sempre falando da saudade da banda, do retorno, da renovação, do gás com que voltavam, da vontade de estar na estrada, e terminou com a frase: "O RAPPA ESTÁ DE VOLTA". E o estouro começou com "Lado B, Lado A" e a partir daí foi tudo uma pancada.


O palco estava todo montado com as mesmas artes do último CD/DVD gravado ao vivo na Rocinha, com madeiritos, caixotes e cordas, imitando palafitas e barracos, além das tradicionais projeções em todo o palco, mostrando o sincretismo religioso, imagens fortes de violência misturados com outras de esperança, crianças, e também com frases ou palavras. A bandeira da Paraíba também apareceu, levando ao delírio o público.

O show estava lotado, muito lotado mesmo. Liás, vendo o site oficial da banda, foi recorde de público na Dommus, com 8.700 pessoas. Mesmo pagando mais para o frontstage, não tem jeito, foi, em alguma hora, aperto. Só dá pra aguentar porque ali, na intensidade do show, ninguém tá nem aí para calor nem nada. Queria era curtir tudo o que tinha para curtir.

E Falcão sempre ajuda, jogando muita água pra galera. Ele parou o show duas vezes pra fazer isso. Era muito quente mesmo.

Coisa que também dá muito pra perceber é quem é fã mesmo ou quem vai pra escutar "pescador de ilusões" e "Vapor Barato". O show foi todo montado em cima do último trabalho inédito do grupo, "Sete Vezes". Assim, muita gente que não acompanha de verdade a banda, acaba ficando meio voando. Mas quem é fã mesmo sabe da qualidade do último trabalho, tão bom quanto todos os demais, até mesmo da referência (pelo menos para mim) que é o "Rappa Mundi".


Assim, vieram "Meu Mundo é o Barro", "Hóstia", "Fininho da Vida", "Súplica Cearense", "Documento", "7 Vezes", "Meu Santo tá Cansado", e "Monstro Invisível".

Entre elas, também não podem nunca deixar de acontecer as que sustentam a banda ao longo de sua história, ainda que algumas não sejam assim tão comuns, como "O Salto", "Homem Amarelo", "Papo de Surdo e Mudo" e "Linha Vermelha". Mas vieram também "Pescador de Ilusões", "Mar de gente", "O que sobrou do Céu", "Minha Alma", "Rodo Cotidiano" e "Reza Vela".

E assim foram quase uma hora e meia de muita intensidade que é próprio das bandas que gostam de tocar ao vivo. Com o apoio sempre providencial do DJ Negralha, fazendo as transições entre as músicas, o rappa continua muito bem na fita. E, segundo as notícias, entram em estúdio para gravar a partir de janeiro novo álbum que, segundo Xandão, será o melhor da carreira do Rappa. Que seja!


Outra nota boa foi Val Donato (muito melhor cantando rock pesado do que MPB ou o que o valha) e a banda Entidade, que se apresentaram antes do Rappa e não deixaram a galera parada nem sem cantar um minuto sequer, cantando RHCP, SOD, Audio Slave, Coldplay e por aí vai...

Bom show, Digno da história do Rappa e ainda bem acompanhado por bandas de apoio muito empolgadas com a chance, certamente, de abrir para mais uma apresentação memorável da melhor banda de rock do Brasil.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pearl Jam - São Paulo - 04 de Novembro de 2011



Quando as rodas do avião tocaram no chão de Guarulhos, pensei: É hoje! Nem acredito!

A sensação ao entrar no Morumbi, mais ou menos às cinco da tarde, com uma temperatura perto dos 15 graus (e detalhe: eu morrendo, de bermuda e camiseta), me revelou uma das sensações mais legais em termos de manifestações musicais: Vou ter oportunidade de participar de um dos eventos mais incríveis da minha vida! E tudo apontava para tanto: O lugar (o cinquentão morumba) é lindo, as companhias ótimas, a cerveja gelada (mas também não tinha como esquentar...). Mas nada, absolutamente nada tirava o foco do que eu tinha ido ver ali: A maior banda de Rock em atividade.

Antes, uma esquentada com a Banda X, que mostrou o quanto estavamos distantes do palco, nas arquibancadas - é verdade - mas o quanto ficamos numa posição que fazia com que o som estivesse estrondantemente bom. Duas colunas de som estavam bem na nossa frente, o que facilitava tudo.


Pouco mais de nove da noite e a banda entra no palco para a abertura com a improvável "Go". Não bastasse, emendou com "Do the Evolution", já mandando o recado de que a noite seria impressionante.

Apesar da Surpresa inicial, é fato que essa é uma das características mais marcantes da banda: a imprevisibilidade do setlist. De fato, são mais de 80 músicas que potencialmnte podem ser tocadas. E é Eddie Vedder quem escolhe, normalmente minutos antes de cada show, as músicas que serão executadas. Isso faz com que - quem pode - acompanhe a turnê em todo o país, porque certamente escutarão variações bem significativas da execução da banda.

E Vedder disse: "Vocês são a maior platéia da turnê. Então merecem o show mais extenso." E assim foi: mais de duas horas de intensidade em um setlist com 29 músicas. Vedder, pouco depois, pediu desculpas, dizendo que ia falar em inglês com a plateira porque seu português era uma merda...". Estava bem a vontade e só trouxe ainda mais a galera pra se entregar ao momento.


De fato, apenas para registrar, se na quinta feira a banda executou "Daughter", "Corduroy", "Save You", "RVM" e "Porch" (acho que quatro das que mais gosto e, de todas, "Save You"), na sexta fizeram "Jeremy", "Wishlist", "Once", "Jeremy", "State of love and trust" e "Yellow Ledbetter", que encerrou a apresentação com a galera já em êxtase, as luzes do Estádio já acesas e uma multidão embasbacada cantando com a banda. Só para registro: "Last Kiss" poderia, certamente, ficar de fora por qualquer uma dessas que citei que foram tocadas na noite da quinta. Não faria a menor falta.

Os Blocos de música foram encerrados por "Black" - e todo o estadio cantarolando com a banda; "Jeremy" finalizou o segundo e "Yellow Ledbetter" pra fechar tudo.

Mas certamente restou claro que a condução do show foi toda feita com base no (ótimo) último trabalho da banda, o "Backspacer". Vieram, pela ordem "Got some" (a quinta a ser tocada); "Gonna See My Friend" (a oitava); "Amongst the waves" (a décima); "Unthought Know" (a décima quarta); "The Fixer" (a décima quinta) e "Just Breath" (A décima oitava - uma balada lindíssima).

A musicalidade da banda já é ponto absolutamente suficiente para gostar, mas depois de assistir PJ20 (o documentário sobre os vinte anos da banda), dá pra perceber porque os que tem um pouco mais de idade do que eu - e que foram adolescente ouvindo a banda - são tão fascinados por ela: O comprometimento que a banda tem com seus fãs produziu uma batalha que foi parar nos órgãos reguladores econômicos norte-americanos, numa alegação de enriquecimento ilícito por parte da Ticketmaster.


A partir daí a banda se colocava contrária ao monopólio da industria fonográfica e na produção dos shows. Além disso, foi (e é, mesmo sem repercussão midiádica - da qual Eddie Vedder parece ter verdadeira aversão) ativista a favor das campanhas por voto consciente e contra a política do Governo Bush (ainda que, em certas ocasiões possa ter enfrentado também resistência do público em shows...).

No palco, a banda mostra uma maturidade incrível e uma harmonia sonora que se vê pouco por aí - talvez no Coldplay e no REM... E Eddie Vedder trocou - porque a idade chega para todos - a loucura de escalar as estruturas metálicas dos palcos e execuções de Mosh que algumas vezes beiravam a loucura - pela companhia da guitarra e do violão, dando ainda mais vida às cordas da banda. A gritaria enlouquecida pela potência e equilíbrio vocal inigualáveis. Trocou a quebradeira do palco por duas pandeirolas que, no fim, joga para plateia. Trocou seus longos cabelos, bermudas e camisa quadriculada (que ainda aparecem no grunge(?)...) por um corte mais curto, uma calça jeans, camiseta e uma jaqueta ou camisa lisa preta...


Mas foi, do começo ao fim, um dos sonhos musicais se realizando. E assim: meio com a sensação de não ser assim tão ruim não ter nascido quando o Queen ou o Led Zeppelin já não existem mais. O Pearl Jam pode levar uma multidão de 60.000 pessoas ao delírio sem parafernalhas eletrônicas, sem enganação, sem efeitos visuais nem ninguém pendurado por cabos de aços ou coisa parecida... uma verdadeira aula de rock que fez todos os que estavam lá sairem se perguntando quando terão oportunidade, novamente, de ver tamanha manifestação de adoração à boa música, retribuída à altura por uma banda que parece ainda ter tanto para oferecer. Tomara que logo!

E para registro: nada melhor do que terminar o final de semana visitando meus tios e primos em São Bernardo! Havia dez anos que não sentava naquela sala pra tomar cerveja com meu tio. Parecia que há dez dias eu tinha estado ali. E a conversa na cozinha de tia Dinda continua a mesma! Todo mundo falando ao mesmo tempo! E meus primos são lindos! Melhor não poderia ser, definitivamente. E ainda deu tempo de ver todo mundo reunido no São Judas. Maravilha!

Fotos por Carol e Yve. Só a segunda que não é nossa.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Uma letra - N - Nando Reis


E agora, o que eu vou fazer?
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus?
E as lágrimas não secaram com o sol que fez?

E agora como posso te esquecer?
Se o teu cheiro ainda está no travesseiro?
E o teu cabelo está enrolado no meu peito?

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo

E agora, como eu passo sem você?
Se o seu nome está gravado no
Meu braço como um selo?
Nossos nomes que tem o "N"
Como um elo

E agora como posso te perder?
Se o teu corpo ainda guarda o
Meu prazer?
E o meu corpo foi marcado pelo seu?

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
E que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo
De novo...de novo...de novo...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Indicados MTV para o VMB 2011


Finalmente a MTV Brasil resolveu parar de palhaçada e tentar fazer com que o Video Music Brasil seja, de alguma forma, respeitado. De fato, nos últimos anos, assistimos a uma série de absurdos que vão desde a quase unanimidade de Strike, Fresno, NX Zero, Detonautas e por aí vai, nas votações. O próprio NX Zero ganhar prêmio de melhor show do ano (lunar?). Ainda que o NX Zero ainda apareça em algumas indicações.

Não teremos o assunto "Restart vaiado" bombando no Twiter esse ano. Ele não concorre em nenhuma categoria.

Boas surpresas, outras que aparecem ainda incipientes na produção, mas que já mostra que há coisa nova e potencialmente boa sendo feita... Tulipa Ruiz, Criolo (que parece se firmar), Emicida (muito legal também no clipe que concorre ao melhor), Móveis (que concorre em melhor clipe e webclipe, mas poderia também estar em outras categorias tranquilamente...), enfim, há uma mudança de tendências, pelo menos.

Agora, um grupo de artistas, intelectuais, formadores de opinião, jornalistas musicais, cineastas é que tomarão a decisão a respeito dos vencedores de cada categoria. O "público" somente votará nas categorias de Webclipe, Webhit, Hit do ano e Artista Internacional.

Samuel Rosa, Herbert, Dinho Ouro Preto, Caetano, Falcão, Lenine, Seu Jorge, Rodrigo Amarante - se não estão indicados - pelo menos não ficarão boiando na platéia com cara de "quem é esse povo?".

E não falo nada em relação ao gosto do público, quando as categorias eram escolhidas todas pelo "público". As estratégias feitas pela própria MTV sempre deram muita possibilidade de se questionar as "vontades populares" expressadas através das votações via internet.

É bom para estimular o acesso às páginas da própria MTV que a emissora (que faz a sua programação completamente voltada para esse público jovem-colorido-abigobal e que vive no computador), empurre Fiuk e todas as bandas coloridas na programação, mas o interesse por tais bandas e artistas acaba sendo bem irreal quando se trata de mostrar realmente o que pode ser apontado como o melhor sobre aspectos técnicos e de representação efetiva de uma cultura (por mais subjetivo e mutável que isso possa ser).

Todos os indicados podem ser vistos na página da MTV brasil: http://mtv.uol.com.br/

Apenas para estimular, as indicações foram quase todas interessantes no melhor clipe do ano:

Criolo – "Subirusdoistiozin" (direção: Tom Stringhini e Alexandre Casagrande)
Emicida – "Então toma" (direção: Fred Ouro Preto)
Garotas Suecas – "Banho de bucha" (direção: Arthur Warren e Suza)
Jota Quest – "É preciso (A próxima parada") (direção: Conrado Almada)
Lurdez da Luz – "Andei" (direção: João Solda)
Mallu Magalhães – "Nem fé nem santo" (direção: Fabrício Pires Bittar de Carvalho)
Mombojó – "Antimonotonia" (direção: Fernando Sanches)
Móveis Coloniais de Acaju – "O tempo" (direção: Steve ePonto)
Pitty – "Só agora" (direção: Ricardo Spencer)
Thiago Pethit – "Nightwalker" (direção: Vera Egito e Renata Chebel)

Os destaques (vale a pena ver mesmo), na minha opinião, ficam por conta de Criolo, num clipe muito legal, mas de um final meio louco, Móveis, que ficou muito legal e foi filmado ao vivo e acompanhado pela internet (tem um trabalho de edição muito legal), Pitty, numa filmagem muito legal, como se fosse na década de 70, num trabalho de adaptação temporal, figurino e tomadas mesmo de vídeo muito legais e Thiago Pethit, principalmente por causa da atuação fabulosa de Alice Braga.

Guilherme Braga, Jornalista especializado em música e videoclipes foi o melhor que eu achei (no Yahoo), que postou sobre os vídeos, que podem ser assistidos em http://br.noticias.yahoo.com/blogs/altoebomsom/dez-videoclipes-concorrem-melhor-ano-no-vmb-165616730.html

Bom passo para a MTV voltar a ser prestigiada nos seu eventos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Uma letra - Na primeira manhã - Alceu Valença



Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho
Como um conde falando aos passarinhos
Como uma bumba-meu-boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como um boi no meio da multidão
Na segunda manhã que te perdi
Era tarde demais pra ser sozinho
Cruzei ruas, estradas e caminhos
Como um carro correndo em contramão
Pelo canto da boca num sussurro
Fiz um canto demente, absurdo
O lamento noturno dos viúvos
Como um gato gemendo no porão
Solidão.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Beth Carvalho e Jorge Aragão - Festival de Inverno de Garanhus - 22 de julho



Apesar de há muito ouvir falar, nunca tinha ido até a fria cidade de Garanhuns para participar do Festival de Inverno. E realmente, fiquei muito impressionado com a organização do evento e, principalmente, com as atrações do mesmo, espalhadas entre os dias 14 a 23 de Julho.

E é bom que sejam citadas, apenas pra não ficar na impressão de que é um show isolado: Geraldo, Alceu, Pato Fu, Otto, Frejat, Nando Reis, Gal Costa, Marina Lima, Marcelo Camelo, Fafá de Belém, Elba, Roberta Sá, Margareth Menezes, Nação Zumbi, Siba, Seu Jorge, Daúde, Luiza Possi, Karina Buhr são apenas as atrações principais no palco que é chamado Guadalajara. Além desse palco, espalhados pela cidade, outros palco dão oportunidade de conhecer música erudita, dança clássica e contemporânea, folguedos populares, arte circense e uma série de outras oficinas ligadas à cultura popular brasileira e da região.

Garanhuns é uma cidade com pouco mais de 130 mil habitantes, de clima extremamente agradável na região do Planalto da Borborema e exatamente por isso é chamada de Suiça Pernambucana. Verão ameno e inverno bastante frio.

Só tendo chegado à noite, pouco consegui (além dos shows, é claro) peregrinar para conhecer tudo que o festival oferece, o que só me deixou na certeza de que é evento para ficar uma semana inteira, bebendo da cultura promovida de maneira tão organizada como nesse festival, que deveria servir de modelo para os festivais da Paraíba que, à míngua, vão, ano a ano, se acabrunhando, sobrevivendo em razão de um esforço sobre-humano de meia dúzia de apaixonados pela cultura.


O primeiro show, depois da apresentação do grupo Samba e Mesa Autoral foi o de Beth Carvalho. Ela, que há cerca de dois anos operou a coluna - e por isso se movimenta com moletas e o show aconteceu com ela sentada atrás de uma mesa - mostrou uma energia e simpatia que contagiaram a audiência.

De fato, um show emocionante da madrinha de Zeca Pagodinho, que cantou todos os seus clássicos de samba, de frevo, de marchinhas de carnaval, de músicas românticas, muitas delas que habitam o meu tempo de criança e adolescente, ouvindo-a, juntamente com Agepê, João Nogueira, Alcione, Fundo de Quintal, Martinho da Vila e Clara Nunes.

Andanças, Água de Chuva no Mar, Acreditar, Vou festejar, 1800 colinas, A Chuva cai, Dor de Amor, Tendências, Coisinha do Pai, Corda no Pescoço, Saco de Feijão, foram algumas das que encantaram a platéia, que mesmo debaixo de alguns momentos de chuva razoavelmente forte, não arredaram o pé nem um segundo. E a Liga, toda de Ponchos de plásticos e regada a um bom 12 anos, curtiu o show numa animação só.

Depois de Beth sobe ao palco Jorge Aragão. Sambista de primeira linha, da estirpe de um Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca, João Nogueira. O Negão carioca, um dos fundadores do "Fundo de Quintal", trouxe o melhor de seu repertório para a madrugada fria (já perto das duas da manhã) para Garanhuns. De característica sempre melodiosa, seus sambas cantam o amor, a saudade, o sofrimento do negro. Uma banda aplicadíssima (e Jorge tem fama de extremamente exigente com sua qualidade musical e, consequentemente, seus músicos) faz um som envolvente, não deixando ninguém sem cantar seus grandes sucessos.



Eu e você sempre, Conselho, Identidade, Falsa Consideração, Coisa de Pele, Papel de Pão, Loucuras de uma Paixão, Moleque Atrevido, Malandro, Feitio de Paixão, Você Abusou, Encontro das Águas, Amor Estou Sofrendo, Logo Agora e por aí vai...

E por fim, ainda teve a Unidos da Tijuca pra fechar, a chuva apertando, o gas acabando e o povo insistindo em ficar... Até que fomos praticamente obrigados a retornar para a Van com destino a Campina Grande, cidade que deveria aprender com Garanhuns como é que se deve incentivar a cultura de uma cidade e de um povo.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Uma letra - Aos meus Heróis - Julinho Marassi

Essa foi uma música que agora há pouco James Castro, grande amigo (e amante da música) me mostrou. Fui pesquisar e achei o autor dela: Julinho Marassi, que faz dupla com Gutemberg, e cantam na noite do Rio de Janeiro. E o tal Julinho tem umas sacadas boas. Essa é uma delas.

Quem quiser ouvir a música, vá no link http://www.youtube.com/watch?v=PAz9PRUhXvQ que tem ela cantada por Chay Suede, que integrou uma das versões do ídolos. Ficou bem legal (a música e as fotos que aparecem também).


Faz muito tempo que eu não escrevo nada,
Acho que foi porque a TV ficou ligada
Me esqueci que devo achar uma saída
E usar palavras pra mudar a sua vida.

Quero fazer uma canção mais delicada,
Sem criticar, sem agredir, sem dar pancada,
Mas não consigo concordar com esse sistema
E quero abrir sua cabeça pro meu tema

Que fique claro, a juventude não tem culpa.
É o eletronic fundindo a sua cuca.
Eu também gosto de dançar o pancadão,
Mas é saudável te dar outra opção.

Os meus heróis estão calados nessa hora,
Pois já fizeram e escreveram a sua história.
Devagarinho vou achando meu espaço
E não me esqueço das riquezas do passado.

Eu quero "a benção" de Vinícius de Morais,
O Belchior cantando "como nossos pais",
E "se eu quiser falar com..." Gil sobre o Flamengo,
"O que será" que o nosso Chico tá escrevendo.

Aquelas "rosas" já "não falam" de Cartola
E do Cazuza "te pegando na escola".
To com saudades de Jobim com seu piano,
Do Fábio Jr. Com seus "20 e poucos anos".

Se o Renato teve seu "tempo perdido",
O Rei Roberto "outra vez" o mais querido.
A "agonia" do Oswaldo Montenegro
Ao ver que a porta já não tem mais nem segredos.

Ter tido a "sorte" de escutar o Taiguara
E "Madalena" de Ivan Lins, beleza rara.
Ver a "morena tropicana" do Alceu,
Marisa Monte me dizendo "beija eu"
Beija eu, Beija eu Deixa que eu seja eu
Beija eu, beija eu deixa qe eu seja eu

O Zé Rodrix em sua "casa no campo"
Levou Geraldo pra cantar no "dia branco".
No "chão de giz" do Zé Ramalho eu escrevi
Eu vi Lulu, Benjor, Tim Maia e Rita Lee.

Pedir ao Beto um novo "sol de primavera",
Ver o Toquinho retocando a "aquarela",
Ouvir o Milton "lá no clube da esquina"
Cantando ao lado da rainha Elis Regina.

Quero "sem lenço e documento" o Caetano
O Djavan mostrando a cor do "oceano".
Vou "caminhando e cantando" com o Vandré
E a outra vida, Gonzaguinha, "o que é?"

Atenção DJ faça a sua parte,
Não copie os outros, seja mais "smart".
Na rádio ou na pista mude a seqüência,
Mexa com as pessoas e com a consciência.

Se você não toca letra inteligente
Fica dominada, limitada a mente.
Faça refletir DJ, não se esqueça,
Mexa o popozão, mas também a cabeça.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Adriana Calcanhoto - Garden Hotel - 21 de Maio




No último dia 21 foi ver, pela segunda vez (depois de, pelo menos, uns 13 anos - o último show dela foi no Clube Campestre) a gaúcha Adriana Calcanhoto na sua turnê Trobar Nova.

Ainda àquela época (lá por 1995 ou 1996) foram produzidos, pelo menos na minha opinião, os dois melhores discos dela: Senhas e A Fábrica do Poema. Era uma loira lindíssima e nunca me esqueço de um vestido azul realeza com os cotovelos e joelhos à mostra. Eu era um adolescente que consumia (junto com um pequeno e seleto grupo de amigos) ferozmente Adriana, Marisa e a melhor de todas: Bethania.

Sábado aparece já uma bela senhora (no auge de seus 45 anos), de olhos verdes e uma serenidade extrema e de uma voz que é um veludo para os ouvidos. Nem de longe parece alguém que já entrou nua num palco para acompanhar Rita Lee... Mas encantadora, num vestido rosa choque e uma capa verde-amarela.

A serenidade só foi quebrada uma vez, depois que um chato insistente gritou, por umas três vezes: "canta Pão Doce!" e ela, delicada e firmemente respondeu, depois da terceira vez: "já ouvi, não precisa gritar, isso aqui é um teatro...". O povo aplaudiu (pra calar a boca do indivíduo), mas fica aquela tensão a cada passagem de uma música para outra, esperando outro gaiato mal educado gritar qualquer outra coisa. Ainda bem, não aconteceu.

Ela - que parece que ainda está sofrendo com uma fratura no punho direito - trouxe também à Campina Grande para acompanha-la nos violões, Davi Moraes, grande guitarrista e que, certamente, deu ao espetáculo um toque ainda mais primoroso (tendo em vista o grande instrumentista que é - mesmo sem desdenhar a que a própria Adriana é). Ele aliás, está encabeçando um projeto muito interessante chamado "Som e Areia", tendo organizado uma casa em Jericoacoara onde recebe músicos amigos para fazer som. O projeto passa no multishow e tem sido muito interessante.

Começou cantando "Beijo Sem" e emendou "Eu sei que vou te amar" .A partir daí vieram, principalmente, as consagradas "Medo de Amar", "Fico assim sem você", "Esquadros", "Mentiras", "Depois de ter você" que foi cantada junto com "Vambora", "Devolva-me", "Metade", "Canção de Novela", "Inverno", "Mais Feliz", "Maresia".

Não vou negar. Senti falta das músicas dos discos que mais gosto: "Senhas", "Grafitis", "Água Perrier...", mas é de se perdoar: muitas músicas dessa poeta ímpar que, certamente, não caberiam nas pouco mais de hora e vinte de show. Show aliás, curtido intensamente (entre uma cochilada e outra, é certo, mas também com muitas palmas!) pelo galego mais cultural do mundo, Daniel, que chegou, contando a avó que tinha escutado Adriana cantando "Avião sem asa, fogueira sem asa, sou eu assim sem você..."

Como notas positivas, a ótima performance de Val Donato e Daniel Pina como show de abertura. Parece que Val segue num caminho muito legal e com personalidade.

A outra, como respeito ao consumidor, as poltronas estavam todas numeradas, de maneira a evitar aquele tumulto sem sentido em lugares tão apropriados para apresentações como essas. Tomara que se torne um hábito sério.